05 janeiro 2026

Movimento Espírita em Transformação-Saulo de Meira Albach

 



MOVIMENTO ESPÍRITA EM TRANSFORMAÇÃO

Saulo de Meira Albach

Delegado da CEPA em Curitiba (PR);

Presidente do CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação Espírita);

Membro do Cultura Espírita Livre-Pensar (Curitiba – PR).

                  OS COLETIVOS ESPÍRITAS

 

A polarização política que se acentuou no Brasil mais notadamente a partir de 2017 produziu efeitos também no movimento espírita. Inúmeros grupos foram criados com ênfase no aspecto social do espiritismo e com a preocupação de trazer ao debate os temas sociais contemporâneos sem a restrição que normalmente é imposta nos setores hegemônicos. 

 

Estes grupos atuam de forma preponderante na internet por meio de eventos virtuais. Alguns desenvolvem ações sociais e de cidadania. A maioria não se caracteriza como um centro espírita tradicional, embora um ou outro possua atividades nos moldes dos centros espíritas.

 

Cito alguns:



·         Ágora Espírita (Pernambuco)

·         Associação Brasileira Espírita de Direitos Humanos e Ciência da Paz – AbrePaz (Goiás)

·         Associação Espírita de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais - AEPHUS (Goiás)

·         Coletivo de Espíritas Antirracistas (COESAR) 

·         Coletivo de Estudos Espiritismo e Justiça Social - CEJUS (São Paulo)

·         Coletivo Espírita Maria Felipa (Bahia)

·         Coletivo Espírita Pela Transformação Social (São Paulo)

·         Coletivo Girassóis – Espíritas Pelo Bem Comum (Ceará)

·         Crítica Espírita (Espírito Santo)

·         Cultura Espírita Livre-Pensar (Paraná)

·         Espíritas à Esquerda 

·         Espíritas Progressistas 

·         Espiritismo com Kardec – ECK (Santa Catarina)

·         Grupo de Estudos Hermínio C. de Miranda (Ceará) 

·         Puebla Espírita – Espiritismo para o povo (Rio de Janeiro)

 

Por ser um fenômeno recente o surgimento dos coletivos ainda não pode ser avaliado especialmente quanto aos resultados das suas atuações. Trata-se, a meu ver, de uma guinada mais à esquerda por setores do movimento espírita, o que me parece bastante salutar do ponto de vista dialético. Se prestarmos atenção na história do movimento espírita brasileiro veremos que, em linhas gerais, ele caminhou mais próximo do pensamento conservador, pelo menos dos anos 30 do século XX em diante. 

Sobre o tema há artigos bastante interessantes de Luiz Signates (Espiritismo e Política: Os Tortuosos Caminhos do Conservadorismo Religioso e Suas Contradições no Brasil e Sinuê Neckel Miguel (Disposições políticas no espiritismo brasileiro: entre “neutralidade” conservadora e aspirações socialistas).

 

Enfim, a questão social retorna, ainda de forma periférica, entretanto, disseminada pelos quatro cantos do país. Com a vantagem da aproximação de pessoas de qualquer lugar onde haja possibilidade de conexão via internet. Esse (re)nascimento vem marcado por um engajamento político jamais vislumbrado na história do movimento espírita brasileiro.  

Nos eventos produzidos pelos coletivos espíritas os temas sociais predominam. Há grupos que promovem leitura e análise de obras que vão desde o filósofo Herculano Pires até o renomado educador Paulo Freire. Temas como o racismo, a questão LGBTQUIA+, a questão colonial (decolonialismo), o sistema neoliberal e a desigualdade social são estudados com frequência, buscando inserir o conteúdo da teoria espírita nas formulações. 

O “Coletivo Girassóis”, a “AEPHUS” (em parceria com a “AbrePaz”  e o “Espíritas à Esquerda”, por exemplo, realizaram fóruns sociais que me remeteram ao ENSASDE (Encontro Nacional Sobre o Aspecto Social da Doutrina Espírita) movimento que produziu três edições nas cidades de Santos, São Paulo e Salvador na segunda década dos anos 80. O II ENSASDE discutiu propostas da comunidade espírita para a Assembleia Nacional Constituinte. Entretanto, não houve repercussão na práxis espírita em decorrência deste evento.    

 

Recentemente os pesquisadores Luiz Signates e João Damásio publicaram na Revista Tropos: Comunicação, Sociedade e Cultura um artigo intitulado: CONFIGURAÇÕES DIGITAIS DA CONTRAHEGEMONIA ESPÍRITA: UMA CARTOGRAFIA DOS COLETIVOS PROGRESSISTAS E DE ESQUERDA NO ESPIRITISMO BRASILEIRO. 

 

Trata-se de um levantamento dos grupos existentes no Brasil “compreendidos ou atravessados” pelo espiritismo progressista. Um ótimo estudo que nos permite enxergar melhor o recente fenômeno de transformação ou pelo menos, de agitação do movimento espírita brasileiro que representam estes novos grupos.

 

Para onde irão os coletivos ou qual será a sua influência no movimento espírita brasileiro são questões que exigem tempo de maturação para serem respondidas. A experiência é recentíssima, está em fase inaugural. 

 

Não sei, também, se o movimento tradicional se importará com a turma progressista. Ouvi dizer que um guru do movimento religioso conservador teria chamado os progressistas de “satânicos”. Se tal notícia é verdadeira espero que o nível da crítica melhore, pois em pleno século XXI ela soa muito pobre e desprovida de sentido. A experiência nos mostra que o movimento tradicional quando sente alguma ameaça ao seu poder reage (i) com absoluta indiferença, uma espécie de negacionismo, (ii) de forma a cooptar os supostos adversários e (iii) de forma a depreciar as pessoas que atuam nos grupos divergentes. Infelizmente não há debate franco e aberto.

 

Acho, enfim, que se abre um portal novo capaz de atrair principalmente a moçada que procura uma filosofia espiritualista menos conformista e mais ajustada à contemporaneidade. 

 

Não espero sinceramente que haja uma adesão à mirada progressista pelo movimento dito hegemônico. Mas antevejo uma nova encruzilhada logo adiante: a abertura para um caminho mais sintonizado com o pensamento contemporâneo e com a transformação social ou uma guinada ainda mais religiosa e conservadora que nos levará definitivamente ao espiritismo de autoajuda que já marca presença com ares de novo modismo. 

 

Enfim, o caminho se faz ao caminhar como disse o poeta espanhol Antônio Machado. E nesta toada retornamos a Leon Dénis: “O Espiritismo será o que o fizerem os homens.” O surgimento de grupos contra hegemônicos com um potencial viés transformador das estruturas sociais pode ser um caminho para nos levar à renovação social sonhada pelo fundador da teoria espírita. O tempo dirá...

    

Curitiba, julho de 2021.

 

 

20 dezembro 2025

Da Palavra à Telepatia: a Evolução da Comunicação e o Futuro da Consciência Coletiva - Wilson Garcia

Da Palavra à Telepatia: a Evolução da Comunicação e o  Futuro da Consciência Coletiva 

Wilson Garcia – professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, presidente do Centro de Pesquisas e Documentação Espírita (CPDoc 2020/2024), Ouvidor da Fundação Porta Aberta (FPA), membro do Conselho da Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires.


Com a inteligência artificial (IA) generativa, a linguagem parece ter adquirido autonomia algorítmica. Essa transformação inquieta e suscita a questão: onde se situa a inspiração — especialmente em sua dimensão espiritual — quando a escrita já não emerge apenas da pena humana, mas da interação com uma máquina capaz de produzir textos?

No âmbito do Espiritismo, essa indagação assume contornos profundos e uais. A doutrina afirma que “os Espíritos influem em nossos pensamentos e em nossos atos, mais do que imaginamos” (KARDEC, 1857, q. 459), estabelecendo que toda inteligência encarnada é participante de um campo mental mais amplo, no qual entidades espirituais, afins ou discordantes, podem atuar pela via da inspiração. Surge, assim, uma questão decisiva: a influência dos Espíritos permanece operante quando o escritor utiliza a inteligência artificial como mediadora de sua produção intelectual? Ou estaria o campo da criação humana agora invadido por um artefato sem alma, que substitui a mediação espiritual por uma combinação estatística de dados?

A máquina, por mais sofisticada que seja, não possui consciência reflexiva, nem intenção moral. Ela não gera valores, apenas articula possibilidades. A fonte da criação continua sendo o Espírito — encarnado ou desencarnado. A inteligência artificial configura-se, portanto, como um espelho ampliado da mente humana, oferecendo material de linguagem que poderá ser elevado pelo sopro espiritual ou degradado pela alienação moral, conforme o uso que lhe imprimir a consciência.

Dessa forma, não se trata de perguntar se os Espíritos inspiram a IA — mas sim se continuam inspirando o ser humano no ato de interagir com a IA. Esta investigação exige um olhar filosófico profundo, ancorado nas bases da doutrina espírita e dialogando com a filosofia da mente, a ciência cognitiva e os estudos contemporâneos sobre IA e consciência. A IA inaugura um novo capítulo da inspiração, no qual o intercâmbio espiritual não é suprimido pela tecnologia, mas colocado à prova, exigindo do indivíduo maior discernimento, liberdade interior e responsabilidade ética diante da palavra.

Fundamentos Filosóficos da Inspiração Espiritual

A inspiração espiritual, conforme delineada por Allan Kardec e aprofundada por Léon Denis, não é um fato extraordinário ou reservado aos gênios. Trata-se de uma lei natural de interação entre inteligências, segundo a qual todo pensamento humano é acompanhado, estimulado ou influenciado por entidades espirituais conforme a sintonia vibratória do indivíduo (KARDEC, 1857, q. 459). A inspiração é, portanto, uma manifestação do princípio de interconexão das consciências, um fluxo mental que atravessa os planos da vida.

A inspiração como fenômeno de coautoria universal

Na filosofia espírita, o Espírito encarnado é ao mesmo tempo autor e receptor. Allan Kardec afirma que “as ideias que surgem espontaneamente em nosso pensamento são muitas vezes sugeridas pelos Espíritos” (KARDEC, 1864, cap. XIX). Essa influência não é coercitiva nem mecânica; ela se dá de maneira sutil, como um sopro, uma direção íntima que ilumina a inteligência humana sem anulá-la. Léon Denis define a inspiração como “a comunhão das almas livres com as almas prisioneiras da carne” (DENIS, 1909, p. 74), destacando que essa comunhão se manifesta na forma de intuições, imagens, impulsos morais e sínteses intelectuais repentinas.

A inspiração como uma forma de mediação da liberdade

O fato de os Espíritos inspirarem não diminui a liberdade humana; ao contrário, a exalta. No pensamento espírita, a mente encarnada funciona como um filtro seletor dos pensamentos que recebe. Herculano Pires (1976, p. 53) argumenta que a inspiração é um “ato de cooperação consciente”, onde o Espírito encarnado participa ativamente do conteúdo que assimila. A inspiração, portanto, não se confunde com possessão nem com automatismo: é uma colaboração, não uma substituição.

A inspiração e a noção filosófica de intencionalidade

A fenomenologia da consciência, desde Edmund Husserl até Maurice Merleau-Ponty, afirma que o pensamento não é neutro: toda consciência é consciência de algo. Essa intencionalidade é a marca do sujeito consciente. Na linguagem do Espiritismo, poderíamos dizer que a inspiração espiritual atua justamente sobre a intencionalidade, ou seja, sobre a direção profunda da alma. Assim, os Espíritos não apenas sugerem ideias, mas também elevam o impulso íntimo que define o rumo da criação. A inspiração não se reduz ao conteúdo verbal — ela se instala no centro da vontade.

Inspiração x automatismo

A inspiração distingue-se radicalmente do automatismo mecânico. Allan Kardec adverte que a verdadeira inspiração eleva moralmente e exige participação consciente do médium ou escritor: “Quanto mais perfeita for a alma, tanto mais segura será a comunicação do pensamento” (KARDEC, 1868, cap. XIV). A inspiração é essencialmente um fenômeno da alma consciente.

A Inteligência Artificial como Novo Mediador da Expressão

A inteligência artificial generativa representa a mais sofisticada ferramenta já criada para auxiliar o pensamento humano. Alimentada por vastos bancos de dados e modelada por redes neurais, a IA é capaz de produzir textos, imagens e respostas a partir de padrões estatísticos e contextuais. Isso levou alguns a levantar a hipótese de que a máquina começaria a “pensar” ou mesmo “criar”. Contudo, do ponto de vista filosófico-espírita, essa interpretação é equivocada, pois confunde processamento de informação com ato consciente de pensar.

A IA como simulacro de pensamento, não como sujeito pensante

Embora a IA possa gerar textos inspiradores, ela o faz sem consciência, sem intencionalidade e sem livre-arbítrio. John Searle, filósofo da mente, já demonstrava esse princípio em seu célebre argumento do “quarto chinês”, sustentando que manipular símbolos não equivale a compreender (SEARLE, 1980). A IA “fala”, mas não sabe que fala; produz discurso, mas não conhece o sentido do discurso. Sua elaboração é sintática, não semântica.

A IA age como espelho da linguagem humana, não como fonte ontológica da linguagem.

A IA como extensão cognitiva da consciência

Do ponto de vista espírita, os instrumentos materiais são progressivamente aperfeiçoados para refletir os avanços da inteligência espiritual encarnada. Assim como o alfabeto ampliou a mente, e a imprensa democratizou o pensamento, a IA amplia a capacidade combinatória e associativa da mente humana. Ela se configura como extensão da memória, da linguagem e da imaginação do Espírito encarnado. Como sintetiza Gabriel Delanne, “a inteligência não vem da matéria; a matéria é que recebe o impulso da inteligência” (DELANNE, 1897, p. 210).

Portanto, a IA não é criadora, mas codificadora de conteúdos preexistentes. Ela oferece possibilidades. A escolha final — e, sobretudo, o sentido moral do que é produzido — permanece sob responsabilidade do Espírito.

A IA não rompe a ponte espiritual: ela redefine o campo de atuação

Se a inspiração espiritual atua na intimidade da mente do escritor, nada impede que essa inspiração utilize, por via indireta, as respostas da IA como matéria-prima. O Espírito inspirador não interfere na máquina; interfere na consciência do autor que, ao interagir com a IA, sente a intuição, o impulso criador ou a iluminação interior para selecionar, rejeitar, reorganizar e ampliar aquilo que a máquina oferece.

Assim, a IA torna-se um novo plano de expressão da inspiração, e não seu substituto. A consciência humana continua sendo o ponto de contato entre os dois mundos: o espiritual e o tecnológico.

A liberdade criadora do Espírito como critério final

A IA pode fornecer mil caminhos; apenas o Espírito escolhe a direção. A escolha é o sinal da presença espiritual. Allan Kardec afirma que “a liberdade é atributo essencial do Espírito” (KARDEC, 1860, q. 843). A existência da IA não diminui essa liberdade; ao contrário, a amplia, exigindo discernimento. A inspiração espiritual permanece ativa enquanto houver consciência capaz de operar atos de vontade.

O Espírito como Fonte da Criação, Não a Máquina

A distinção entre origem e meio é central para compreender a relação entre inspiração espiritual e inteligência artificial. A IA pode ampliar os meios de expressão do pensamento, mas não pode originá-lo no sentido ontológico. A fonte do pensamento é o Espírito — individual, consciente, dotado de intencionalidade. Essa é uma tese fundamental tanto no Espiritismo quanto em diversas correntes da filosofia da mente.

A inspiração como ato da consciência espiritual

Allan Kardec afirma que “o pensamento é atributo essencial do Espírito, parte integrante do ser espiritual” (KARDEC, 1860, q. 23). Isso significa que o pensamento não emerge da matéria, mas da individualidade inteligente que a utiliza. Léon Denis (1909, p. 52) reforça que “a alma é o foco da vida, criadora e diretora; a matéria é o seu instrumento”. Assim, nenhum instrumento, por mais poderoso que seja, substitui a alma criadora. A IA, sendo mecanismo derivado da matéria, apenas pode refletir e combinar; nunca gerar um ato original de significação.

A máquina não possui intencionalidade nem finalidade

Na visão fenomenológica da consciência, sobretudo em Edmund Husserl, todo ato do pensamento é intencional, isto é, dirigido a um objeto, movido por um sentido ou finalidade. Esse impulso finalístico, essa orientação do pensamento em direção a um propósito, é o que revela a presença de um sujeito consciente. A IA, por mais avançada, não possui finalidade própria — ela apenas responde a estímulos externos. Ela não deseja, não busca, não se projeta. Logo, como afirma Hubert Dreyfus (1992), a IA pode simular o raciocínio, mas não viver o pensamento.

A inspiração espiritual continuada

Quando um autor utiliza a IA, ele continua sendo o centro ativo do processo criativo. A mente do escritor permanece como receptáculo da inspiração, selecionando o que a IA oferece, rejeitando o que não ressoa com seu campo moral, reorganizando textos conforme a intuição recebida. Os Espíritos inspiradores atuam nessa zona íntima da escolha e da direção:

“Onde há um pensamento elevado, há sempre uma influência espiritual superior a nos estimular” (KARDEC, 1868, cap. XIV).

Assim, a inspiração espiritual não é deslocada para a máquina; ela permanece na alma humana, que passa a interagir com um instrumento mais complexo.

Síntese com a filosofia da mente contemporânea

Autores como David Chalmers (1995) mostram que a consciência não pode ser reduzida a processos puramente computacionais, pois ela envolve uma dimensão qualitativa subjetiva — o chamado hard problem da consciência. Da mesma maneira, Raymond Kurzweil (2005), embora otimista com a fusão homem-máquina, admite que a consciência é um fenômeno emergente de níveis superiores de organização, não redutível a algoritmos.

O Espiritismo antecipa essa visão ao afirmar que a consciência é atributo do Espírito, não do corpo nem do cérebro. Assim, mesmo diante da IA, a fonte criativa permanece onde sempre esteve: na individualidade espiritual.

Síntese Filosófica: Consciência, Livre-Arbítrio e Inspiração no Século da Inteligência Artificial

A emergência da IA generativa constitui um marco civilizatório que exige reconsiderarmos o lugar da consciência no processo criador. Contudo, longe de ameaçar o princípio espiritual, a IA evidencia ainda mais sua centralidade. A máquina mostra seus limites não por ineficiência, mas por excesso de precisão mecânica: ela executa, mas não decide; processa, mas não contempla; combina, mas não cria sentido. A própria existência da IA coloca em relevo o abismo ontológico que separa o pensamento consciente do cálculo algorítmico.

Consciência como núcleo irredutível da experiência

A filosofia contemporânea da mente reconhece que a consciência é um fenômeno qualitativo, subjetivo e experiencial — aquilo que Thomas Nagel denominou “o que é ser” um determinado ser (NAGEL, 1974). Essa dimensão subjetiva, para o Espiritismo, é a própria expressão da individualidade espiritual em ação. Assim, a inspiração espiritual ocorre no nível mais íntimo da consciência, ativando a vontade e iluminando a inteligência.

A IA, desprovida de subjetividade, não participa desse processo. Ela opera no plano da linguagem, mas não no plano da experiência. Desse modo, a IA é um espelho sofisticado da consciência, não seu substituto.

Livre-arbítrio como critério da presença espiritual

O livre-arbítrio, conforme Kardec (1860, q. 843), é o atributo que distingue o Espírito consciente da máquina. O indivíduo, ao interagir com a IA, é confrontado com múltiplas possibilidades de expressão. Essa multiplicidade exige discernimento moral — justamente onde a inspiração espiritual atua. Os Espíritos superiores não escrevem pela máquina; inspiram o homem para que ele utilize a máquina com elevação e propósito.

Assim, quanto mais complexo o instrumento, maior a responsabilidade moral do Espírito que o utiliza. A IA amplia a arena da decisão humana, o que torna ainda mais intensa a atuação da inspiração espiritual como elemento orientador.

A coautoria invisível: quando a inspiração orienta o uso da IA

No ato criador assistido por IA, o Espírito não “fala através da máquina”, mas através da consciência humana que opera a máquina. A intuição, esse sinal da presença espiritual, manifesta-se no impulso que leva o autor a formular determinada pergunta, a rejeitar uma sugestão inadequada, a combinar conceitos com originalidade, a elevar o texto a uma dimensão moral e filosófica superior.

O que a IA oferece é matéria linguística. O que o Espírito autor cria é sentido.

Um novo cenário para a inspiração: a era da inteligência expandida

A IA inaugura uma nova fase histórica da inspiração espiritual. Não mais limitada ao livro impresso ou à escrita manual, a inspiração agora atravessa um campo digital interativo, onde a palavra pode ser refinada em tempo real, expandida com enorme rapidez e projetada globalmente. Isso não fragmenta a inspiração; ao contrário, confere-lhe novos canais de expressão, exigindo do Espírito encarnado:

  • maior discernimento,
  • maior consciência ética,
  • maior integração entre pensamento, sentimento e intenção.

Assim, a IA é o novo cenário em que o Espírito continua seu processo milenar de manifestação, aprendizado e coautoria com o invisível.

Conclusão – A Continuidade da Inspiração no Século da Inteligência Artificial

A presença da inteligência artificial no campo da criação literária e filosófica não representa uma ruptura com o princípio espiritual da inspiração; ao contrário, manifesta de forma ainda mais evidente a distinção entre o instrumento material e a fonte consciente do pensamento. A IA, por mais avançada que se torne, permanece no domínio do cálculo e da combinação de dados; ela não pensa, não intui, não deseja. Toda criação autêntica nasce de um impulso interior, de uma chama de consciência que busca expressar-se no mundo. Essa chama é o Espírito.

O Espiritismo sustenta que o pensamento é atributo do ser espiritual, e que a inspiração é uma modalidade nobre do intercâmbio entre inteligências encarnadas e desencarnadas, para fins de progresso moral e intelectual da humanidade. Esse princípio não se altera pela introdução de novas tecnologias. A inteligência artificial, assim como a pena, a prensa ou o computador, é apenas um espelho ampliado da mente. Mas a luz que ilumina esse espelho continua vindo da consciência espiritual.

Em termos filosóficos, a IA nos obriga a reconhecer que o ato criador não se reduz à expressão linguística: ele nasce da intencionalidade, da liberdade, da consciência de si. Em termos espirituais, ela reforça a verdade enunciada por Kardec: os Espíritos atuam incessantemente sobre os pensamentos humanos, e a alma, ao interagir com qualquer instrumento, atrai conforme a sua sintonia moral. A IA amplifica o poder expressivo, mas não cria o propósito. O Espírito continua sendo o autor do destino humano, e não a máquina.

Se a IA multiplica a palavra, cabe à consciência espiritual elevar o verbo. Se o algoritmo oferece caminhos, cabe ao Espírito decidir qual leva à sabedoria. Assim, a era da inteligência artificial não marca o fim da inspiração espiritual, mas sua nova aurora. O Espírito, participando da ordem eterna do progresso, encontra na IA mais um degrau de sua ascensão e um vasto campo de cooperação com as inteligências que o assistem do plano invisível, confirmando que a imortalidade não é apenas promessa, mas presença viva no ato de pensar.

Quando a máquina fala, é a matéria que responde. Quando a inspiração ilumina, é o Espírito que vive.

Fonte: Artigos 20/10/25 blog expedienteonline.com.br Wilson Garcia 

Referências

CHALMERS, David. Facing Up to the Problem of Consciousness. Journal of Consciousness Studies, v. 2, n. 3, p. 200–219, 1995.

DELANNE, Gabriel. A Alma é Imortal. Trad. de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 1897.

DENIS, Léon. No Invisível. 6. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1909.

DREYFUS, Hubert L. What Computers Still Can’t Do: A Critique of Artificial Reason. Cambridge: MIT Press, 1992.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 83. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1857.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Trad. de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 1864.

KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 1868.

KURZWEIL, Raymond. The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology. New York: Viking, 2005.

NAGEL, Thomas. What Is It Like to Be a Bat? The Philosophical Review, v. 83, n. 4, p. 435–450, 1974.

PIRES, José Herculano. Mediunidade: Vida e Comunicação. São Paulo: Paideia, 1976.

SEARLE, John. Minds, Brains and Programs. Behavioral and Brain Sciences, v. 3, n. 3, p. 417–457, 1980.

05 dezembro 2025

ESPIRITISMO, LAICIDADE, LIVRE PENSAR E AS RELAÇÕES COM A ATUALIDADE - Milton Rubens Medran Moreira

 

             ESPIRITISMO, LAICIDADE, LIVRE PENSAR E AS RELAÇÕES COM A ATUALIDADE

          


Milton Rubens Medran Moreira, Procurador de Justiça aposentado, Advogado e Jornalista, foi diretor de Comunicação da Federação Espírita do Rio Grande do Sul onde dirigiu a revista “A Reencarnação”, é membro do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre do qual foi Presidente, Diretor de Comunicação Social e Fundador/Diretor, por 30 anos, do Jornal CCEPA OPINIÃO. Autor de vários livros espíritas. Ex-presidente da CEPA (2000/2008).

 

A religião e o laicismo

No dia 23 de setembro de 2012, quando ainda ocupava o trono da Santa Sé o pontífice

recentemente desencarnado Bento XVI, publiquei no mais importante jornal de Porto Alegre, Zero

 Hora, o artigo “O Papa e o Laicismo”.

Comecei o texto reconhecendo: “Andou muito bem o Papa Bento XVI, em sua recente visita ao

 Oriente Médio, pedindo se respeite, ali, a liberdade religiosa e defendendo o laicismo por ele

 adjetivado como saudável”.

Como todos sabemos, o cardeal alemão Joseph Ratzinger, então no papado, sempre

demonstrou posições bastante conservadoras, diferentemente daquele que o iria suceder, o

Papa Francisco,  que ainda hoje está no cargo e a quem, com justiça, se atribuem posições muito

progressistas e, em grande parte, coincidentes com os anseios modernos do pluralismo

religioso e do secularismo.

Cerca de dois anos antes, numa visita à Espanha, para uma efeméride envolvendo as tradições

religiosas de Santiago de Compostela, Bento XVI fizera um histórico da tradição cultural

espanhola onde se incrementaram conceitos contemporâneos de laicidade. Lamentou que o

laicismo então defendido se posicionava como anticlerical e contrário ao exercício de poderes

tradicionalmente reconhecidos como exercitáveis pela Igreja. Naquela visita de 2010 à

Espanha, Ratizinger sustentou que “para o futuro é necessário que não haja um

enfrentamento, mas um encontro entre fé e laicismo”.

No artigo “O Papa e o Laicismo” externei otimismo e até uma certa admiração, ao constatar

que a Igreja, que, na época do surgimento do espiritismo, tanto combatera ideias como

pluralismo religioso, liberdade de pensamento, e, notadamente, a retirada do poder

eclesiástico a influenciar sobre os poderes seculares, agora, por seu representante maior,

admitisse todas essas ideias da pós-modernidade, falando, inclusive em laicismo. Este, para

ele, seria “saudável”, na medida em que não negasse Deus e a espiritualidade.

Consignei, então, no referido artigo:

“O autêntico laicismo sempre é saudável porque, sem combater crenças individuais, admite a

existência de uma gama infinita de formas de interpretar o divino e o humano, a consciência

e o universo, buscando, no conjunto de tudo, o sentido da vida”.

E que:

  “Paradoxalmente, aqueles mesmos que, ainda ontem, rebelaram-se contra a vitória do

laicismo sobre a ditadura da fé, reconhecem, agora, que só numa sociedade genuinamente

laica há espaço para vicejarem e crescerem os verdadeiros valores do espírito. Sinal dos

tempos! Bons sinais. Plenamente concordes com a sentença de Jesus de Nazaré, segundo

quem “o espírito sopra onde quer”. O que se pode ver é que, cada vez mais, espiritualidade

passa a ser sinônimo de humanismo. Migra do inescrutável reinado do mistério e do dogma

para o terreno aberto e democrático das experiências humanas contra cuja corrente, quase

sempre, se posicionaram as castas sacerdotais. É a força do espírito livre, centelha divina

presente no homem. A ela tudo, um dia se há de conformar. Inclusive as religiões, quando

compreenderem que o verdadeiramente sagrado é o natural. Não o sobrenatural”.

Da teocracia à laicidade – um longo caminho.

Fiz o introito acima para destacar que a laicidade, diferentemente do que ocorreu

praticamente em toda a história do cristianismo, é hoje um valor reconhecido como

fundamental ao progresso, ao desenvolvimento de qualquer sociedade, sob os aspectos

culturais e como estruturador dos valores atinentes ao humanismo.

Quando vemos um papa reconhecidamente conservador, como foi Bento XVI, falar em

pluralismo religioso, em liberdade de pensamento e, especialmente, em laicismo, impossível

não evocar o quanto, em toda sua história, o cristianismo combateu essas ideias, se havendo

tornado, com eventos como as Cruzadas e o longo período da Inquisição, uma das mais

violentas teocracias jamais existentes na história da humanidade

Pois foi no Século XIX, período em que o espiritismo surgiu, na França, dali se espalhando a

diversos outros países europeus, que esse conceito de laicidade ganhou força e consolidação

no Ocidente cristão, embora suas bases teóricas tenham acontecido antes.

Na verdade, a visão teológica do mundo cristão sofreu profunda modificação com o advento

da Modernidade. Durante todo o período que se convencionou chamar de Idade Média, uma

poderosa teocracia dominara todo o Ocidente e parte do Oriente, onde o cristianismo também

fizera prosélitos. Naquele contexto, Jesus de Nazaré, pouco a pouco, deixara de ser visto como

o extraordinário codificador de uma doutrina moral libertadora para ser tido como próprio

Deus, integrante da Santíssima Trindade, cujo sacrifício terreno teria o efeito de salvar o

homem cristão (e somente este), libertando-o do pecado original que, segundo Agostinho

(354/430), dera origem à “Civitas Terrena”, em oposição à “Civitas Dei”. Mesmo nas

concepções mais racionais de Tomás de Aquino (1225/1274) e de sua Escolástica, que

concedia valor ao Estado, o Direito Divino, do qual era guardiã a Igreja e seu Sumo Pontífice,

estaria acima de qualquer poder estatal.

Esse foi o cenário que dominou o mundo cristão por toda a Antiguidade e Idade Média. Entre

os séculos XV e XVI, entretanto, ocorre uma verdadeira revolução de ideias que viria a se

denominar Renascimento.

Nada mais apropriado para caracterizar essa revolução do que a frase de Leonardo da Vinci:

 “o homem é o modelo do mundo”. 

Fatores como a concepção copernicana  substituindo a visão ptolomaica de que era a Terra o

centro do Universo; a descoberta de novos continentes; a invenção da imprensa e a Reforma

Protestante dividindo o cristianismo em dois blocos, geraram uma nova postura do homem

perante si mesmo e ante a grande instituição até então todo poderosa que era a Igreja.

É o humanismo valorizando o homem e guindando-o à condição de centro do universo

conhecido, revivendo, dessa forma, a cultura helenística que o cristianismo houvera sepultado. 

O processo de modernidade que então explode, como bem definem os pensadores católicos

Francisco Catão e Magno Vilela (Monopólio do Sagrado” -Editora Best Seller) 

“caracteriza-se pela ruptura e fragmentação, tanto da vida humana quando da sociedade.

Nesse contexto, é quase obrigatório considerar-se a religião como uma estrutura

sobrenatural imposta ao humano. Além de humilhado pela autoridade divina, o ser humano

é colocado no papel de servo inútil, como condição de salvação. Por isso, na raiz da

modernidade, a afirmação da autonomia humana vai se fazer antes de tudo contra a

religião”. 

Evidentemente que isso criaria conflito entre Estado e Igreja, habituada que estivera esta

desde Constantino e de Teodósio, no Século 4º, a ocupar o papel de força reguladora e

moralizadora do Estado e dos povos. A ética até então vigente era a ética religiosa. Agora, um

novo paradigma apontava para a ética racional, com ou sem Deus.

Mas, o século do aparecimento do espiritismo, na Europa, foi quando, efetivamente, o Estado

se libertou da Igreja. Isso não ocorreu, entretanto, sem uma reação vigorosa da Santa Sé.

Praticamente todo o Século 19 e até as primeiras décadas do Século 20, o processo de

laicização no Ocidente terminou por dar lugar a imensos conflitos entre Estado e Igreja, entre

razão e religião.

São dessa época as mais duras manifestações eclesiásticas contra a liberdade, que,

evidentemente, jamais seriam, hoje, subscritas pela Igreja. Provavelmente, a mais significativa

delas seja a encíclica “Mirari Vos”, promulgada pelo Papa Gregório XVI (1832), versando sobre

o que intitulava de “os erros modernos”, com um introito que justifica sua promulgação,

porque, no dizer do Pontífice, “Violaram as leis, alteraram o direito, romperam a aliança eterna.

 Referimo-nos, Veneráveis Irmãos, às coisas que vedes com vossos mesmos olhos e que todos

choramos com as mesmas lágrimas. É o triunfo de uma malícia sem freio, de uma ciência sem pudor,

de uma dissolução sem limite. Deprecia-se a santidade das coisas sagradas; e a majestade do divino

culto, que é tão poderosa como necessária, e, no entanto, é censurada, profanada e escarnecida.

A partir daí, corrompe-se a santa doutrina e se disseminam com audácia erros de todo o gênero.

Nem as leis sagradas, nem os direitos, nem as instituições, nem os santos ensinamentos

estão a salvo dos ataques e das línguas malvadas”. 

Nesse documento, o Bispo de Roma condena veementemente a chamada “liberdade de

consciência”, que atribui ao indiferentismo religioso, do qual emana “aquela absurda e errônea

 sentença, ou melhor dito, loucura, que afirma e defende a todo o custo e para todos, a liberdade de

consciência. Esse erro pestilento possibilita, escudado na imoderada liberdade de opinião que, para

ruína da sociedade religiosa e da civil, estenda-se cada dia mais por todas as partes, chegando a

imprudência de alguns a assegurar que a ela se segue grande proveito para a causa da religião”.

Nessa mesma linha de raciocínio, o documento papal condena o que chama “monstruosa

doutrina” que prega a liberdade de imprensa, pois que essa possibilitaria “a difusão de livros e

escritos maléficos para a humanidade”. 

Repele também a proposta de separação entre Estado e Igreja, assim justificando a posição: 

“As maiores desgraças viriam sobre a religião e sobre o Estado, caso se cumprissem os

desejos daqueles que pretendem a separação da Igreja e do Estado, rompendo-se a

concórdia entre o sacerdócio e o poder civil.” 

Ao tempo em que foi promulgada essa encíclica (1836), o espiritismo ainda não havia sido

sistematizado por Allan Kardec, que só o faria em 1857, com a publicação de O Livro dos

Espíritos. Mas, todos os antecedentes históricos antes referidos, notadamente a partir da

Revolução Francesa, (1789), justificavam o movimento eclesiástico de repúdio às novas ideias,

perdendo que estavam a Igreja e o clero o protagonismo por tantos séculos mantidos.

Esses mesmos temas, liberdade de expressão, de consciência e de imprensa, assim como a

separação da Igreja e do Estado, continuariam sendo severamente atacados por outros Sumo

Pontífices, como Leão XIII, Pio IX e Pio X, em recorrentes bulas e manifestações dos Chefes da

Igreja no Século 19.

Vale recordar, outra famosa encíclica, promulgada em 1864, pelo Papa Pio XIX, com o título de

“Quanta Cura”, que foi acompanhada de um famoso documento, o Syllabus, onde a Igreja

arrola o que entende serem os grandes erros da modernidade laica, citando como tais: o

comunismo, o socialismo, o liberalismo cultural e religioso, o naturalismo, as sociedades

secretas e outras ideias em grande ebulição na época. Não fala em espiritismo, mas, na

medida em que condena o “naturalismo”, ou a ideia da superioridade do Direito Natural sobre

o Direito Divino ou Eclesiástico, toca exatamente no ponto fulcral da moral e da ética espírita,

presentes em toda a terceira parte de O Livro dos Espíritos.

Um dos pontos mais atacados no Syllabus é a normatização estatal do matrimônio, antes

administrado exclusivamente pela Igreja, que o considerava um sacramento, enquanto,

perante o Estado, nada mais é do que um contrato civil entre os cônjuges. Nessa mesma linha,

condena o divórcio, eis que, para a Igreja o casamento é um vínculo indissolúvel.

Laicismo e espiritismo

Felizmente, pouco a pouco, vai ficando para trás a ideia, tão fortemente arraigada no

movimento espírita brasileiro, de se identificar o espiritismo como uma religião. O

aprofundamento do estudo da vida e da obra de Allan Kardec, saudavelmente introduzido há

quase meio século no próprio movimento, e objeto, hoje, de ricas ampliações de parte de

pesquisadores e intelectuais espíritas, deixaram clara a intenção de seu fundador de

conceituar o espiritismo não como uma religião, mas como uma ciência de consequências

filosófico-morais.

Não sendo o espiritismo uma religião, e não pretendendo, como disse Kardec, em seu famoso

Discurso de Abertura, de 1º de novembro, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas,

“enfeitar-se” com um título que não possui, pode-se, e deve-se, naturalmente, tratá-lo como

um movimento espiritualista, humanista e laico.

Ser laico não implica, necessariamente, em ser antirreligioso. Pode-se, perfeitamente,

respeitar todas as crenças, reconhecer nelas algumas contribuições relevantes no campo do

processo de desenvolvimento ético e moral da humanidade, mas, e ao mesmo tempo, negar-

lhes a possibilidade de interferência baseadas exclusivamente em artigos de fé, no campo das

relações estatais e na formulação de leis e políticas administrativas. Esse laicismo, reconhecido

mesmo por um papa conservador, como foi Bento XVI, como “saudável”, separando Igreja e

Estado é, mais do que isso, necessário para o bom desenvolvimento ético, plural e

democrático da sociedade.

As obras fundadoras do espiritismo, mesmo colocando-o na condição de promover a “aliança

entre a ciência e a religião”, não cuidam de “revelações divinas”, como o fazem todas as

religiões, mediante seus livros sagrados. A moral adotada pelo espiritismo é aquela contida na

“lei natural”, que “indica o que devemos fazer e o que não devemos fazer”, e que está inscrita

“na consciência” do espírito imortal (questões 614 e seguintes de O Livro dos Espíritos).

Isso não é religião, é filosofia. Uma filosofia progressista que, tendo como fundamento a

condição transcendente e espiritual do ser humano, também reconhece na razão e não nos

dogmas religiosos, o caminho para o progresso, na busca da verdade, em clima de liberdade,

de igualdade e de fraternidade.

A laicidade, sob cuja perspectiva o espiritismo contempla o ESPÍRITO – “princípio inteligente

do universo”, consoante a questão 23 de O Livro dos Espíritos – tem como pressuposto

inafastável a liberdade de pensamento. Esta, segundo Kardec, significa “livre-exame, liberdade

de consciência, fé raciocinada”. Diversamente do dogma religioso, “o livre-pensamento eleva a

dignidade do homem, dele fazendo um ser ativo, inteligente, em vez de uma máquina de crer”.

(Revista Espírita, 1867).

Essa perspectiva assumida pelo espiritismo coloca-o inteiramente ao lado do laicismo e não da

religião, nesse embate que se trava ao curso de todo o Século 19 entre a Igreja e o Estado

Moderno.

E justamente por se postar ao lado da laicidade, o nascente movimento espírita, administrado

por Allan Kardec, sofre os ataques da Igreja. Kardec registra isso no seu artigo “Período de

Luta”, publicado na Revista Espírita de dezembro de 1863, e que, segundo ele, começou com o

Auto de Fé de Barcelona, em 9 de outubro de 1861, onde teria sido dada “…a palavra de ordem:

 sermões furibundos, mandamentos, anátemas, excomunhões, perseguições individuais, livros,

 brochuras, artigos de jornais, nada foi poupado, nem mesmo a calúnia. estamos, pois, em pleno

período de luta, mas este não terminou.” 

A palavra “laicismo” não aparece nas obras de Kardec, mas toda sua obra, fundada nas

revelações da ciência e nos ditames das leis naturais rejeita o dogma religioso como fonte de

conhecimento, substituindo-o pela razão, pela experiência humana, pelo intercâmbio entre a

humanidade encarnada e a humanidade desencarnada, movidas pela lei do progresso.

Laicismo e laicidade seriam bandeiras que apareceriam nas décadas seguintes e foram

largamente utilizadas, por exemplo, no I Congresso Internacional Espírita, de 1888, em

Barcelona, em cujas conclusões, aparece esta recomendação aos espíritas de todo o mundo: 

“O esforço constante para difundir o Laicismo por todas as esferas da vida. – A absoluta

liberdade de Pensamento, o Ensino integral para ambos os sexos e o Cosmopolitismo como

base das relações sociais.” 

No Congresso Espírita de Barcelona, como também no Congresso Hispano-americano de

Espiritismo, de Madri (1892), pensadores como o espanhol Visconde de Torres-Solanot

(1840/1902) e o francês Charles Fauvety (1813/1893) usaram largamente a expressão “religião

laica” para definir o espiritismo.

A expressão “religião laica”, talvez por carregar certa ambiguidade, não se sustentaria com o

tempo.

No meu entender, os esforços dos espíritas verdadeiramente livres-pensadores, da atualidade,

devem ser no sentido de identificar o espiritismo com movimentos laicos, humanistas, capazes

de se inspirar em pesquisas científicas e vocacionados a criar políticas de bem-estar social, de

progresso e de fraternidade entre todos os povos e pessoas. A proposta espírita, difundida na

sua integralidade e, notadamente, a partir das perguntas e respostas, contidas em sua terceira

parte, tratando das “leis divinas ou naturais” está em consonância com todos os anseios em favor

de uma sociedade próspera e feliz. O movimento espírita, como um todo, pode ser um

eficiente auxiliar nesse processo. Como afirmou Kardec:

“O Espiritismo não cria a renovação social; a madureza da Humanidade é que fará dessa

renovação uma necessidade. Pelo seu poder moralizador, por suas tendências progressistas,

pela amplitude de suas vistas, pela generalidade das questões que abrange, o Espiritismo é

mais apto, do que qualquer outra doutrina, a secundar o movimento de regeneração; por

isso, é ele contemporâneo desse movimento”.  

Secundar, como desejava Kardec, significa integrar-se a todos esses movimentos progressistas,

contribuindo com eles a partir de sua visão de Deus, de homem e de mundo. Saliente-se que a

própria Igreja Católica, hoje, sob a condução do Papa Francisco assume posições em sentido

diametralmente oposto àquelas expostas nos documentos oficiais da Igreja do Século 19. Na

medida em que acolhe e deixa de condenar a homossexualidade, em que convida a integrar-se

a seus cultos casais que se divorciaram de seus cônjuges anteriores, em que volta a ação da

Igreja às populações mais carentes, desenvolvendo políticas sociais em defesa dos socialmente

excluídos, pode-se dizer que a Igreja se laiciza e vai ao encontro do pluralismo religioso e do

secularismo que tanto condenou no Século 19.

Por outro lado, entretanto, há um crescente segmento cristão que assume posturas

conservadoras, nos costumes, na política, na pregação da fé cega que separa os “bons” dos

“maus”. E esses segmentos, notadamente no Brasil, ganham posições políticas importantes.

Tiveram, no governo dos últimos quatro anos enorme influência e foram responsáveis pela

implantação de um clima de ódio. Pretensamente escudados na fé, obstaculizaram avanços

importantes da própria ciência e, no campo político/social, em matérias como igualdade de

sexo e de gênero. Contaminaram o setor educativo com ultrapassados conceitos moralistas e

semearam muita intolerância religiosa, especialmente com relação a crenças e cultos de matriz

africana. Enfim, tentaram implantar um regime teocrático, onde a Bíblia, e não a Constituição,

deveria ser tida como a Lei Maior.

É preciso estarmos atentos à História. Todos os grandes avanços civilizatórios da Modernidade,

 a democracia, a igualdade de direitos civis, a abolição da escravatura, a extinção da pena de

morte na maioria dos países, etc., foram conquistas da sociedade laica e, quase sempre, contra

 os interesses defendidos pela religião. Por séculos, fomos treinados para crer e para aceitarmos

as injustiças sociais como provações divinas. O conhecimento tomando o lugar da crença foi – e,

em muitas circunstâncias, continua sendo – uma luta árdua.

É da natureza da religião o desejo de preservar sob seu domínio, fantasiados de dogmas e

mistérios insondáveis, os temas relativos à alma humana, sua natureza, sua origem, seu

destino. Entretanto, a espiritualidade é muito mais do que religião e bem mais do que simples

crença. É a busca da compreensão integral do ser humano, que extrapola ritos e mistérios,

para se compatibilizar com a ciência, com a filosofia, com o amor e todos os sentimentos

nobres semeados pela natureza na alma humana.

Para finalizar, o laicismo é importante e indispensável ao Estado Democrático de Direito. Uma

sociedade regida por dogmas de fé, e não pela expressão de vontade de seus cidadãos, não se

compatibiliza com a liberdade de pensamento, torna-se escrava, subserviente, de indivíduos

geralmente incapazes do exercício do poder, mas que, por força de um pensamento mágico e

irracional, se arvoram em “representantes de divindades”.

Só o laicismo pode assegurar o mandamento primeiro de uma democracia: “Todo o poder

emana do povo e em seu nome será exercido”.

 

Referências bibliográficas e de informação midiática

1) Jornal Zero Hora, edição de 23 de setembro de 2012.

2) Encíclica “Mirari Vos”, promulgada pelo Papa Gregório XVI, em 1832.

3) Encíclica “Quanta Cura”, promulgada pelo Papa Pio XIX, em 1864.

4) “Monopólio do Sagrado”, Francisco Catão e Magno Vilella – Editora Best Seller.

5) “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec.

6) “A Gênese”, 5ª edição – Allan Kardec.

7) “Revista Espírita”, fevereiro 1867 e dezembro de 1868.

8) Anais do Primeiro Congresso Internacional Espírita de Barcelona/1888 –

www.autoresespiritas clássicos.com. 

By Grupo Ágora Espírita - março 18, 2023 

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